No terceiro mundo da Europa

O sistema neoliberal mundial, esse em que o culto ao Deus dinheiro –religiom também, ópio do povo sempre– prevalece sobre a dignidade e a soberania dos povos, nom mudou de estratégia nos últimos 150 anos. Se a época do colonialismo, em que se alicerçou a revoluçom industrial que aproximou do Norte global essa teima consumista chamada estado do bem-estar, se caracterizou por umha detracçom selvagem de recursos naturais no Sul global, hoje continuamos na mesma. Mas agora a detracçom também é de identidades nacionais, de sistemas de produçom autóctones, de conhecimento tradicional, de princípios activos, de genes, de espécies… Todo vale, todo é privatizável, todo é susceptível de engordar os amos das bolsas mundiais. Os mercados já nom som de divisas, nem de acçons, petróleo ou cereais, som mercados de vidas.

Ogano as empresas governam, os governos obedecem e os cidadaos e o orbe padecem. A Repsol esnaquiza parques nacionais bolivianos deslocando comunidades indígenas completas. Fai o mesmo no Equador e na terra dos mapuches. A Endesa tem denúncias polas suas actuaçons no Bio-Bio chileno. A Ence passa por cima da populaçom pretendendo instalar umha macrocelulose no Uruguai. A Calvo submete os trabalhadores e trabalhadoras equatorianas a detectores de mentiras. As sardinhas e bocartes austrais já nom alimentam a gente, senom os salmons da Pescanova. O centro do sistema medra socavando a dignidade da periferia. E há cínicos que se atrevem a dizer “Porque nom te calas?”.

A Galiza, no seu contexto, nom é diferente. Estamos no centro do sistema global, é verdade, mas na periferia desse centro. Para a Europa e para a mamá Espanha somos o seu Terceiro Mundo particular. Basta comprovar como a nossa terra dá luz a Espanha inteira à custa dos seus rios, dos seus montes inçados de moinhos de vento ou do seu ar poluído por insustentáveis térmicas que operam pondo em perigo e deslocando a populaçom com monstros como a Reganosa. E agora também lhes temos que dar de comer.

O plano aqüícola da Junta, feito a meias entre Fraga e Touriño –com a silenciosa cumplicidade nacionalista–, pretende roubar ao povo 3,3 milhons de metros quadrados das suas paisagens mais prezadas para cedê-lo às transnacionais do peixe, nomeadamente a Stolt Sea Farm –com matriz no paraíso fiscal do Luxemburgo–, que substituiu no PSOE as preferências do PP com a Pescanova. Nom temos precedentes de semelhante ocupaçom no litoral alheio às rias.

É um plano para a fabricaçom intensiva de peixes planos, sobretudo do rentável rodovalho, no qual as subvençons públicas farám que as galegas e os galegos financiemos durante anos os gastos de produçom das empresas. Neoliberalismo puro: socializar o gasto e privatizar o ganho, umha vez que os tecidos produtivos galegos ficam fora das previsons. Nem umha cooperativa, nem umha sociedade feita polos do comum poderá aceder a este gorentoso oferecimento.

A Galiza produz da ordem de 3.800 toneladas de rodovalhos artificiais. A Europa inteira 5.300. Contodo, o Fundo Europeu de Pesca destina mais de 70% dos seus investimentos para a Galiza à produçom piscícola. O resto, se calhar, será para o desmantelamento de frota. Com a bênçom espanhola, a Europa pretende dizer-nos que o povo galego já nom é um povo de marinheiros, que devemos mudar em piscicultores mal assalariados por um par de transnacionais e as suas ETT’s. Pretendem obrigar-nos a que soframos o gasto ambiental das suas insustentáveis actividades económicas. Porque som só isso, actividades económicas, nom alimentares. Sim, continuamos na mesma.
[Manoel Santos. Plataforma Medioambiental de Corrubedo. Publicado en Novas da Galiza]
Ver tamén: A política ambiental do bipartito consegue unir a sociedade civil excluída do Hórreo

3 Comments

  1. silenciosa complicidade dos nacionalistas?, a min paréceme estruendosa aquiescencia. E que calaron acaso no tema Reganosa?, qué fixo durante anos en As Pontes o bng senon gobernar da man de ENDESA? En concellos do litoral onde gobernou esta formación,como Poio ou Pontedeume a desfeita urnbanística non ten nada que envexar á que propicia o pp en concellos como Miño ou Sanxenxo

  2. “Para a Europa e para a mamá Espanha somos o seu Terceiro Mundo particular”. Eu diria que esta frase é exemplo de vitimismo e falta de respeito polas periferias globais.

    Somos parte dum dos centros globais e temos a nossa parte de responsabilidade na situaçom das periferias globais, nom só porque somos orige dalgumhas transnacionais, tamém por como é que vivemos.

    Somos periferia europeia, mas as desfeitas que se comentam tivérom nom pouco apoio social e institucional no nosso país. REGANOSA e ENDESA, por exemplo, som defendidas por partidos e sindicatos.

    E Galiza tamém tem as suas periferias internas, nom o esquezamos.

    Menos amabilidade co BNG (que defende REGANOSA, as emissons de ENDESA, as piscifactorias, o AVE…), menos vitimismo e menos populismo, por favor.

  3. Bem signatus, nom vejo eu falta de respeito pelas periferias globais. Queda claro ao início: “A Galiza, no seu contexto, nom é diferente”. “No seu contexto” é frase importante. E também, até há uma década, tivérom apoio social e institucional as desfeitas, por exemplo, na America Latina (claro que em um contexto de mais repressom).
    Amabilidade co BNG? Falei de complicidade com um projeto croncreto do PSOE, e a complicidade é culpabilidade também, pois o BNG defende o plano aqüicola. E vitimismo tampouco, mais sem essa lectura de como nos comportamos como periféria é dificil ter argumentario para a luita. As periférias, no seu contexto, também se podem rebelar.
    No demais, Reganosa, Endesa, etc., concordo plenamente.

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